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terça-feira, 5 de julho de 2011

AS TELENOVELAS COMO DISSEMINADORAS DE OUTRAS CULTURAS

As telenovelas fazem parte do cotidiano da família brasileira. Nesse contexto, torna-se uma importante ferramenta na difusão de certas culturas para o público. É possível conhecer vários lugares, culturas e tradições por meio das telenovelas e minisséries.

A cultura muçulmana é um dos principais temas de O Clone (Rede Globo, 2000), que tem como fio condutor a história de amor vivida pela muçulmana Jade (Giovanna Antonelli) com o brasileiro Lucas (Murilo Benício). Os dois jovens se apaixonam, mas são impedidos de ficar juntos por causa da tradição muçulmana, defendidos com rigor pelo tio de Jade, o patriarca Sid Ali (Stênio Garcia), que se agarra às crenças e à cultura árabe para arranjar um bom casamento para a sobrinha Jade. Entre os costumes muçulmanos retratados pela autora Glória Perez, a novela aborda a religião islâmica, os papéis masculino e feminino na sociedade, a dança, a língua e a culinária árabes, as cerimônias marroquinas, a poligamia e ainda o choque entre as culturas ocidental e muçulmana. A autora contou com a consultoria de dois xeques importantes no contexto muçulmano e dois irmãos marroquinos. Palestras, textos e filmes sobre os hábitos muçulmanos fizeram parte da fase de preparação do elenco e da equipe. Os atores tiveram aulas de expressões árabes e prática de orações, além de aulas de dança do ventre e de dança árabe para os homens. As primeiras cenas de O Clone foram gravadas em cinco cidades do Marrocos, onde também foi comprada uma boa parte do figurino, denotando assim, a fidelidade com a cultura muçulmana. Além disso, a novela apresentou ao público brasileiro típicos instrumentos musicais árabes. O Clone foi um sucesso de público e expressões árabes faladas pelos personagens ganharam as ruas, como “Maktub”, “Inshalá”, “Haram”, “Jogar ao vento” e “Arder no mármore do inferno”.


Retratar peculiaridades da cultura indiana em contraponto aos hábitos e costumes do Brasil foi uma das premissas da autora Gloria Perez ao escrever Caminho das Índias (Rede Globo, 2009). A novela teve como ponto de partida a paixão proibida entre dois jovens indianos de origens distintas graças ao sistema de castas. Notam-se também as diferenças entre as tradições indianas e o pensamento ocidental, principalmente em relação ao casamento, o respeito aos mais velhos, a educação dos filhos e a postura da mulher. Ocorreram locações na Índia e em Dubai. A profusão de cores presentes na Índia orientou o trabalho das equipes de figurino e maquiagem da novela. O vestuário tradicional, geralmente usado em rituais, foi levado para o dia a dia, para enfatizar a cultura indiana descrita no texto. A novela popularizou expressões como Are Baba, Atchá, Atchatchatcha, Baguan Keliê, Firanghi, Mamadi, Baldi, Namastê, Tik, Tchalô. As atrizes do núcleo da Índia tiveram aulas intensivas de bhangra, uma dança típica indiana, para compor seus papéis. Os atores também treinaram. As músicas e danças da novela conferiram um sabor de Bollywood à novela.


Um caso especial é a novela Negócio da China (Rede Globo, 2008), em que ocorre a mistura principalmente de duas diferentes culturas no bairro Parque das Nações: portuguesa e chinesa. Houveram locações na China e em Portugal. A China apresentada pela novela não era a de tradições milenares, mas um país urbano e agitado. Alguns atores precisaram de treinamento especializado para viverem seus personagens. O núcleo dos portugueses passou por um curso intensivo de panificação e aprendeu a fazer doces portugueses. Outros atores treinavam realmente kung fu. A equipe de figurino esteve em Portugal e na China para conhecer o universo cultural dos dois países, o que ajudou na criação de algumas peças, vários uniformes usados na academia de kung fu Terra do Meio vieram da China, onde também foram compradas sedas para compor o visual de várias personagens femininas.

A novela Explode Coração (Rede Globo, 1995) aborda o universo cigano por meio da história de Dara (Tereza Seiblitz), que, apesar de se orgulhar de suas origens, se recusa ficar presa às tradições, como o contrato de casamento e o estudo limitado oferecido às mulheres. Os personagens de Mio (Ivan de Albuquerque) e Soraya (Laura Cardoso) representam firmemente às tradições ciganas, repudiando até as moradias fixas. Para aprender os hábitos e costumes do povo cigano, os atores fizeram um laboratório, aprenderam danças e expressões em romanês, a língua cigana. O figurino também estava de acordo com os costumes ciganos.


Em Mandacaru (TV Manchete, 1997) o cangaço é tema central, retratando seus costumes e discutindo a questão da terra. Ambientada nos anos 30, em Jatobá, sertão da Bahia, a trama inicia-se após a morte de Lampião (Alceu Valença) e Maria Bonita (Daniela Mercury). Representada principalmente pelas figuras dos cangaceiros Tirana (Victor Wagner) e Zebedeu (Bemvindo Sequeira). Surge na história também a lenda de Dom Sebastião, crença presente no Nordeste Brasileiro. No meio de vinganças, jogos políticos e mulheres que desejam o amor verdadeiro e a felicidade de poder ser mães, a vida de cangaceiros e coronéis do sertão é apresentada. Atualmente, a trama Cordel Encantado (Rede Globo, 2011) traz o cangaço também como um dos seus eixos temáticos, porém com uma visão mais romântica dos cangaceiros do que em Mandacaru.


Outras culturas também foram eixos temáticos de outras novelas. A cultura judaica foi abordada em O Amor Está No Ar (Rede Globo, 1997) através do núcleo de Sofia Schnaider (Betty Lago). A família Schnaider chegou ao Brasil fugida no pós-guerra, e aqui, começou vida nova, construiu uma empresa e ganhou espaço na sociedade pelo próprio trabalho. A cultura italiana foi abordada em diversas telenovelas, como Terra Nostra (Rede Globo, 1999), Esperança (Rede Globo, 2002), as quais tratavam principalmente da questão da vinda dos italianos para o Brasil, além da trama Poder Paralelo (Rede Record, 2009), que focou na questão da máfia italiana.


Em relação à cultura africana, apesar do grande número de negros no Brasil, ainda não houve uma telenovela que retratasse a riqueza desta cultura como tema central. Existem tramas que abordaram a escravidão, como Sinhá Moça (Rede Globo, 1986) e Escrava Isaura (Rede Globo, 1976), porém isto denota a limitação da forma como a cultura negra foi tratada. Tanto em Sinhá Moça como em Escrava Isaura, as protagonistas são brancas e o negro surge apenas como o escravo sofrido, ficando a cultura africana em segundo plano e toda a sua diversidade é subestimada. Em Duas Caras (Rede Globo, 2007), o candomblé foi abordado por meio das personagens de Dona Setembrina (Chica Xavier) e Andréia Bijou (Débora Nascimento), mas também de uma forma superficial, não informando a sociedade sobre a religião, tendo até um caráter mítico na trama.


A teledramaturgia brasileira fez várias tentativas de incluir o universo indígena nas novelas, mas uma breve e superficial análise já mostra uma diversidade de imagens dos indígenas: às vezes inseridos no ambiente de uma trama histórica, às vezes aculturados, às vezes estereotipados. Ora integrados à cultura branca, ora sofrendo preconceito na cidade, ora em conflito por suas terras. Apenas um elemento em comum: a maioria dos personagens foi vivida por atores brancos, como se pode observar em Alma Gêmea (Rede Globo, 2006), em que a personagem Serena (Priscila Fantin) protagonizava uma índia, porém branca. Logo, ainda hoje há lacunas na abordagem geral da cultura indígena com sua história, seus costumes e tradições. Assim como a cultura africana, a cultura indígena não teve uma abordagem profunda de seus diversos aspectos. Atualmente, a novela Araguaia (Rede Globo, 2010) trouxe a figura do índio, representada principalmente pelas personagens Estela (Cléo Pires) e Ruriá (Turíbio Ruiz), mas com uma conotação negativa sobre o índio embasada na maldição indígena contra o protagonista Solano (Murilo Rosa).


Assim, aprendeu-se um pouco mais sobre as culturas muçulmana, indiana, cigana, cangaceira, judaica, italiana, indígena e africana estando apenas em frente a uma televisão. Percebe-se, então, a importância deste meio de comunicação em massa da diversidade presente na sociedade contemporânea.

O ASPECTO HISTÓRICO

A minissérie Lampião e Maria Bonita (Rede Globo, 1982) levou para a tela um dos mais conhecidos episódios da história nacional. O enredo é baseado na vida do mais famoso cangaceiro do Brasil, Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, um pernambucano nascido em 1897, que se transformou no mais forte símbolo do cangaço. Lampião era conhecido como o rei do cangaço. Em suas andanças, conheceu Maria Bonita, a primeira mulher a fazer parte de um grupo de cangaceiros. A história de Aguinaldo Silva e Doc Comparato acompanha os últimos seis meses de vida de Lampião (Nelson Xavier) e Maria Bonita (Tânia Alves), período até hoje um tanto obscuro na história. Apesar da extensa e cuidadosa pesquisa histórica, a minissérie traz alguns elementos ficcionais. A história narra inúmeras perseguições, fugas do bando, embates com a polícia, enfim, momentos de grande tensão característicos do cangaço. Para produzir a série, autores, diretores e produção visitaram as regiões em que o cangaço imperou, percorrendo de Jeremoabo, na Bahia – município onde nasceu Maria Bonita –, até Angicos, em Sergipe, onde os dois foram mortos. A minissérie foi gravada em diversas cidades do Nordeste, as locações no sertão foram escolhidas a dedo: todos os locais por onde Lampião e Maria Bonita passaram com seu bando, mantendo, assim, fidelidade a real história. Apesar da sólida base histórica, o texto de Lampião e Maria Bonita é uma obra de ficção. Embora se tenha realizado uma pesquisa minuciosa, em que autores, diretores e produtores percorreram a região do cangaço, onde foram feitas investigações e inúmeras entrevistas sobre os protagonistas da história e suas origens, os autores optaram por ter liberdade ficcional, porém, ainda assim, o aspecto histórico encontra-se muito presente na obra.


Com roteiro de Walter Avancini, Abolição (Rede Globo, 1988), minissérie, foi realizada em comemoração ao centenário do fim da escravatura no Brasil. A narrativa é centrada no período em que a Lei Áurea está prestes a ser assinada pela Princesa Isabel (Tereza Rachel), em 13 de maio de 1888. Nesse momento, o tema abolicionista era amplamente discutido nos centros urbanos, enquanto nas áreas rurais as relações escravagistas ainda eram intensamente vividas. A história mostra como e quanto a libertação dos escravos modificou as estruturas da sociedade urbana e rural e as conseqüências dessa libertação para o próprio negro brasileiro. A luta pela libertação é pontuada pelo debate entre as posições de brancos e negros. Para escrever Abolição, Wilson Aguiar Filho contou com a colaboração do historiador Joel Rufino dos Santos. Mas, para assessorar na reconstituição histórica do período, ambos contaram com a ajuda do também historiador Francisco Alencar, que durante dois meses esteve à frente do trabalho ao lado da equipe de autores. A utilização de pequenos trechos falados em iorubá e em português com sotaque francês ou italiano mostra o cuidado na reconstituição dos tipos que circulavam na Corte e na zona rural na época. Para a composição de seus personagens, o elenco também teve aula de dança de origem africana.

Em 1989, comemorava-se o centenário do nascimento da República no Brasil, e o povo voltava a escolher pelo voto direto o seu presidente. Nessas circunstâncias, a TV Globo lançou a minissérie República (Rede Globo, 1989), que buscou mostrar de forma linear e com preocupação quase didática a conspiração tramada nos bastidores do poder imperial para a proclamação da República, iniciada quando militares rebelados aliaram-se a políticos da oposição e, em 15 de novembro de 1889, acabaram por depor D. Pedro II, pondo fim à monarquia no Brasil. As causas preponderantes no processo de proclamação da República são retratadas na minissérie, desde a abolição – com a qual o imperador perde sua mais sólida base de apoio – até o centralismo econômico e administrativo do governo imperial – que resulta numa reivindicação republicana na região Centro-Oeste do país –, culminando com a rebelião militar que envolve federalistas, senhores de escravos e republicanos. A minissérie ressalta a falta de participação e envolvimento popular no episódio, a população assistiu indiferente aos acontecimentos políticos.


A minissérie A Muralha (Rede Globo, 2000) conta a saga dos bandeirantes, pioneiros no desbravamento do território brasileiro. Paulistas em sua maioria, por volta de 1600, suas atividades consistiam em abrir rotas rumo ao interior do país em busca de riquezas e, também, índios, para serem vendidos como escravos. Mesmo sob domínio territorial português, a luta pela posse das propriedades era constante. Vindos de diferentes partes do mundo, inúmeros forasteiros e estrangeiros tentavam se apossar do território conquistado pelos bandeirantes. As cenas iniciais da minissérie reproduzem a captura de índios pelos bandeirantes, que era feita de forma violenta e repleta das atrocidades inerentes à cultura de poder baseado em opressão, conforme o pensamento então vigente. A produção da minissérie contou com auxílio especializado de alguns caciques e pajés de tribos brasileiras e contou com o apoio do Funai. Para que o elenco e a equipe técnica entendessem o universo dos índios da época, quatro workshops foram preparados pela produção. A autora Maria Adelaide Amaral decidiu contar ao telespectador o período histórico inaugurado com o ciclo dos bandeirantes paulistas.


O enredo de A Casa das Sete Mulheres (Rede Globo, 2003), minissérie, narra a trajetória de personagens reais e fictícios durante a Revolução Farroupilha – movimento separatista antiimperial ocorrido na então província do Rio Grande do Sul (1835-1845). A história se desenvolve a partir da ótica das mulheres da família de Bento Gonçalves (Werner Schünemann), líder dos farrapos, e tem como pano de fundo as ações desses homens nas batalhas contra as tropas do Império. A Guerra dos Farrapos significou a consolidação do Rio Grande do Sul como grande força política do país. Através da narrativa, a minissérie discute a formação étnica, cultural e geográfica do Rio Grande do Sul e o papel das mulheres na sociedade e na guerra. Outro ponto importante abordado pela trama é a história dos negros levados para a região, que tiveram importante influência na organização e operação das charqueadas – uma das atividades econômicas principais do estado na época – e papel de destaque na Guerra dos Farrapos, a minissérie mostrava que os escravos das estâncias não estavam submetidos à estrita vigilância nem eram atirados às senzalas, como acontecia em outras províncias do Brasil. Para a reconstituição dos fatos históricos foi necessária uma pesquisa rigorosa de todas as áreas envolvidas na produção, foram realizadas palestras com historiadores e especialistas na Revolução Farroupilha. Porém, alguns historiadores criticaram a forma pela qual a minissérie retratou a Guerra dos Farrapos, idealizando o líder gaúcho Bento Gonçalves. Segundo eles, a história apresentada mostrava Bento Gonçalves como um homem decidido a acabar com as injustiças sociais, enquanto os brasileiros que lutavam ao lado do Império eram apresentados como vilões.

Baseada na trajetória de Juscelino Kubitschek, a minissérie JK (Rede Globo, 2006) é dividida em três fases: a primeira dura apenas o capítulo inicial e mostra o nascimento e a infância de Juscelino até a morte de seu pai. A segunda contempla o período que vai do início da faculdade de Medicina, passa pelo seu ingresso na vida política e segue até a posse como prefeito de Belo Horizonte. Por último, a minissérie mostra a trajetória do político, já em plena atividade, até ser eleito presidente da República e, depois, sua vida no exílio e o acidente automobilístico que o matou, em agosto de 1976. A minissérie mostra toda a campanha de Juscelino pela presidência da República pelo PSD, os anos de governo de Juscelino, a construção e inauguração da capital Federal, a estratégia com o Plano de Metas, o sonho de avançar 50 anos em 5, os ataques ao governo movidos pela UDN e por parte da imprensa, um pouco da Ditadura Militar e a morte de um dos maiores presidentes do Brasil. Os autores e sua equipe de pesquisa estudaram e trabalharam durante um ano no roteiro, que narrou os 74 anos de vida do político e, dessa forma, a história do próprio Brasil.


A minissérie Amazônia – de Galvez a Chico Mendes (Rede Globo, 2007), narra a história do Acre, a última região a ser anexada ao território brasileiro. Durante muitos anos, o estado, antes boliviano, atraiu nordestinos e estrangeiros que deixavam suas cidades em busca de uma vida melhor através da extração do látex. A busca incansável por novas áreas de extração prejudicou a natureza, cada vez mais explorada de forma predatória, e trouxe pobreza para a região. Para narrar a minissérie, a autora Glória Perez misturou dados reais e ficção. A história começa em 1899, no Acre, e mostra a vida nos seringais no período áureo da borracha, quando apenas a região era produtora do material e despertava o interesse do mundo inteiro. Os seringueiros ficavam nas mãos do coronel, que controla todos os seus gastos, monopolizando os produtos à venda no armazém e estabelecendo preços abusivos. O estado do Acre vive uma difícil situação, pois, apesar de ser território boliviano, fora povoado por brasileiros que migravam do Nordeste atraídos pela exploração da borracha. A fase do período de decadência da borracha também é contada através de tramas ficcionais. A outra fase da história se passa na década de 1980 e apresenta Chico Mendes (Cássio Gabus Mendes) adulto, a terceira figura emblemática na história do Acre. Preocupado com a exploração desenfreada da floresta amazônica e a precária situação dos seringueiros, Chico Mendes decide se organizar para lutar por mudanças. A equipe gravou cenas na região Norte, em locações no Acre e no Amazonas. Para auxiliar na composição de seus personagens, alguns atores visitaram o Seringal Chico Mendes, uma área de preservação em Xapury, no Acre, para se familiarizarem com o cotidiano do universo dos seringueiros, conhecendo até mesmo histórias reais de quem vivenciou a época retratada pela minissérie.



A primeira telenovela brasileira a abordar o período da ditadura militar no Brasil em sua trama central é Amor e Revolução (Rede SBT, 2011). Ambientada no Rio de Janeiro e em São Paulo, a trama tem início com a Revolução de 1964 e perpassa pelo período mais obscuro da ditadura militar, os chamados anos de chumbo. “A intenção é narrar a história de personagens diretamente ligados ao tema da ditadura, seja a favor ou contra, como militares, guerrilheiros, torturadores, artistas, jornalistas, advogados e estudantes nos anos brutais da repressão. É possível que avancemos até a guerrilha do Araguaia, no começo da década de 70”, observa Tiago Santiago, autor da história. Amor e Revolução conta a grande história de amor vivida pelo militar José Guerra (Claudio Lins) e pela guerrilheira Maria Paixão (Graziela Schmitt), casal protagonista do folhetim. A história da luta armada pelos ideais da democracia e liberdade no Brasil, a violência aos direitos humanos, a luta pela liberdade de expressão por meio da arte e da imprensa, a desagregação de famílias, a força de estudantes engajados que defendem a igualdade social no país, e as atrocidades cometidas contra os presos políticos são alguns dos temas abordados em torno da trama central.  A novela levanta discussões sobre as mudanças comportamentais na década de 60, como a liberação da mulher após a pílula, o feminismo, o movimento hippie, a cena teatral e musical, as transformações provocadas pela moda, entre outras revoluções culturais dos anos 60. A novela quase foi censurada graças aos militares que não queriam sua exibição.

RACISMO

Assim como na vida real, o racismo é gerador de polêmicas também na ficção. Tanto na denúncia como na promoção do mesmo.  Se analisarmos as primeiras novelas transmitidas no Brasil até as atuais, veremos que os negros nunca tiveram muito espaço nesse campo. Pode-se dizer que essa questão vem mudando de forma progressiva, mas lenta.

Até meados da década de 1960, os negros nas tramas das telenovelas estavam sempre no lugar da tragédia.  Na década de 1970, estreou O Bem-Amado (Rede Globo, 1973), de Dias Gomes. Foi aí que a televisão brasileira experimentou pela primeira vez a cor. Apesar da mudança tecnológica, o negro não saiu de seu lugar estereotipado, que reafirmava um imaginário construído no período escravista: o negro como classe subalterna, sempre no lugar dos serviçais. Surgem nestas décadas as novelas de época que tinham como tema a escravidão no Brasil que reproduziam a versão oficial de que a libertação dos escravos foi um feito realizado só por brancos (Escrava Isaura e Sinhá-Moça).

Entre 1980 e 1990, houve algumas mudanças, em destaque, as representadas pela telenovela Corpo a Corpo (Rede Globo, 1984), onde aparece uma personagem vítima de preconceito racial, a Sônia (Zezé Motta).  Estas duas décadas são consideradas, por muitos, como um período de ascensão do negro na telenovela brasileira. Apesar dessa ascensão, muitas pessoas ainda acreditam que nas novelas brasileiras, o negro é sempre o serviçal, seja como a típica empregada doméstica, no caso das mulheres, ou o guarda-costas, motorista, mordomo ou capanga, no caso dos homens.

Algumas cenas, em especial chamam atenção, como na da novela Pátria Minha (Rede Globo, 1994) de Gilberto Braga, que o poderoso empresário e vilão, Raul Pellegrini  (Tarcísio Meira) humilhava seu empregado negro, que só chorava, sem esboçar reação mais corajosa. Em Viver a Vida (Rede Globo, 2009) de Manoel Carlos, novela que foi ao ar quase 15 anos depois de Pátria Minha, pode-se notar uma grande semelhança, numa cena que passou exatamente na Semana da Consciência Negra em que Tereza (Lílian Cabral) dá um tapa em Helena (Taís Araújo), que pede desculpas ajoelhada.

Além dessa correlação entre as cenas, há também uma questão a ser levantada. Depois de sete Helenas brancas nas novelas de Manoel Carlos, surgiria agora uma que seria interpretada por uma atriz negra, contudo muitos críticos acreditam que a trama seja um pouco diferente das outras Helenas, sendo até considerada superficial, o que fez com que Luciana (Alinne Morais) “roubasse a cena” dos capítulos da novela.


Em entrevista da concedida à Revista ÉPOCA, a atriz mostra sua “indignação” a cerca dos títulos recebidos por serem eles baseados em questões raciais:

ÉPOCA – Na história da televisão brasileira, você carrega o título de primeira protagonista negra de uma telenovela e o de primeira Helena negra do autor Manoel Carlos. Como enxerga esses títulos?

Taís
Araújo – Minha carreira, desde o início, tem sido marcada por títulos como esses: primeira negra a ser protagonista de uma novela (Chica da Silva), primeira negra a ser protagonista na Globo (Da cor do Pecado), primeira negra a apresentar um programa de beleza (Superbonita, do GNT), primeira negra a ser protagonista de uma novela das oito da Globo (Viver a vida). Acredito que tudo isso seja sorte, acompanhada de muito empenho, disciplina e dedicação. Ao mesmo tempo, dispensaria todos esses títulos que também mostram o preconceito e o atraso existentes no meu país, que tanto amo.

DROGAS É UM TEMA QUE NÃO SE ESGOTA NAS NOVELAS

As drogas, naturais ou sintéticas, são substâncias que ao serem introduzidas no organismo, atuam sobre um ou mais de seus sistemas, produzindo alterações em seu funcionamento. O uso de drogas ilícitas é discutido com frequência na teledramaturgia brasileira, sendo as novelas, consideradas por muitos, o veículo mais eficiente para promover a discussão de valores éticos.

O pesquisador em telenovelas na USP, Claudino Mayer, afirma que o assunto está muito presente na sociedade brasileira servindo como um alerta mostrando ao telespectador os modos como essa doença pode ser tratada. Mayer se nega a classificar o tema como um modismo, definindo-o como parte do convívio das famílias do Brasil. Em sua análise, os autores falam desse problema como forma de dar veracidade às tramas. Cada autor traz uma dosagem diferente. Todos com objetivo de convencer o telespectador de que as drogas são ruins.

A novela Passione (Rede Globo, 2010), abordava o assunto das drogas através do personagem Danilo (Cauã Reymond), filho mais velho de Saulo (Werner Schunemann) e Stela (Maitê Proença), usa anfetaminas para melhorar o seu desempenho no ciclismo e logo passa a consumir outros tipos de entorpecentes. Ele deixou uma vida de sucesso no esporte, perdeu o convívio da família e de amigos, lutou contra uma droga que realmente mata. Provou que só é possível sair dessa aceitando a ajuda de especialistas e da família, principalmente. Mas o caminho é árduo e exige muita força de vontade. Silvio de Abreu, autor de Passione, quando questionado que o personagem deveria morrer para poder conscientizar os jovens a respeito das drogas afirma que “Morrendo ou não, o Danilo já é um bom retrato do que acontece em nossa sociedade”. O personagem, no final da trama conseguiu se livrar das drogas, o que infelizmente, na maioria das vezes, não acontece na “vida real”.


A novela O Clone (Rede Globo, 2000), que esta sendo reprisada este ano, traz uma personagem que também se envolve com as drogas, a Mel (Débora Falabella). Assim como Danilo da novela Passione, Mel começou com as drogas consideradas “leves”, no caso dela a maconha. Esta personagem demonstra claramente o fator que na maioria das vezes é desencadeante dessa atitude, o mau relacionamento com os pais e a influência dos amigos. Com a personagem Mel, a novela enfatiza o período em que os jovens se iniciam na experiência e vivem a fase de deslumbramento que caracteriza esse começo. No decorrer da história, Mel sofre as consequências da dependência química, ela chega a ser presa por porte de drogas, participa de um assalto a ônibus, e facilita um assalto a sua própria casa, em que a mãe, Maysa (Daniela Escobar), fica sob a mira de um revólver. Ela sofre um aborto espontânea e depois, grávida novamente, quase morre e bota a vida do filho em risco durante o parto. Como na novela Passione, a autora de O Clone, Glória Perez também mostrou que é possível uma recuperação, pois no final, Mel aceita ir às reuniões dos Narcóticos Anônimos e acaba abrindo uma clínica para dependentes químicos.


Em Poder Paralelo (Rede Record, 2009), o personagem Rudi (Petrônio Gontijo), proprietário de uma boate, irmão mais velho de Tony (Gabriel Braga Nunes), do qual ele tinha ciúmes. Rudi era usuário de drogas de personalidade complexa, tem problemas com os pais e se sente ofuscado por Tony. As drogas e os problemas psicológicos norteiam a vida do personagem permitindo assim se fazer sempre uma analogia com a vida “real”. A novela, em especial, as cenas de Rudi tiveram muita repercussão na sociedade. O ator Petrônio Gontijo, quando questionado sobre seu personagem afirmou que “As pessoas olham com identidade para o personagem. Acho que elas se identificam porque todo mundo tem um parente querido numa situação assim, com vício em bebida ou drogas”.

Comparando-se três novelas que retrataram o assunto, percebe-se que em O Clone, a autora Gloria Perez mostrou o lado dos dependentes químicos que “quebravam tudo pela droga", Mel em especial. Já Rudi, em Poder Paralelo, de Lauro Cesar Muniz, é "um personagem tenso, que sofreu até uma overdose". Em Passione, Silvio de Abreu mostra um "retrato glamourizado de um usuário".

Ao discutirem a dependência química, as novelas "abrem os olhos dos telespectadores" para o assunto, servindo como uma mola propulsora para mostrar que o problema ainda está presente na sociedade.
Assim como outros temas recorrentes no cotidiano das pessoas, o alcoolismo já foi abordado e provavelmente ainda será em muitas novelas. Alguns personagens tem uma grande repercussão na mídia, como é o caso de Heleninha Roitman (Renata Sorrah) em Vale Tudo (Rede Globo, 1988), uma alcoólatra. Chocante, porque até então poucos sabiam do alcoolismo como doença e menos ainda, aceito e assim apresentado: por um rico (e mulher) como portador.


A personagem, que tomava porres homéricos, quebrava bares e dizia barbaridades para a mãe Odete Roitman (Beatriz Segall). Sua atuação foi de relevância impar para o enfoque desse dilema social. Pode-se dizer que Heleninha Roitman foi um divisor de águas no trato da doença do alcoolismo no Brasil, tornando-se assim uma das personagens alcoólatras mais famosas da TV, até hoje lembrada por muitos.

As novelas, com o passar do tempo vão acrescentando e expondo à sociedade novos conceitos, servindo como um verdadeiro veículo de informação. Em Viver a Vida (Rede Globo, 2009),a personagem Renata (Bárbara Paz), é alcoólatra e desenvolve drunkorexia, também conhecida como anorexia alcoólica. A doença, que afeta principalmente as mulheres, consiste na substituição da comida pelo álcool. Os drunkoréxicos sofrem de dependência alcoólica e distúrbio alimentar ao mesmo tempo. Em uma das cenas da novela, Renata, se achando gorda, vai direto para a esteira correr. Exausta e fraca, por ter dormido pouco e bebido na noite anterior, ela desmaia. Na novela, o problema de consumo excessivo de bebida alcoólica é uma característica da família. O pai de Renata morreu por causa do vício.

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

As novelas brasileiras adotaram um discurso politicamente correto, incluindo em suas tramas mensagens com preocupações sociais e educativas. São os chamados merchandisings sociais. Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa e Glória Perez entram nesse time que cria o próprio merchandising em suas novelas.

O CAT, Centro de Atendimento ao Telespectador, como o nome já diz, esse lugar atende o telespectador em tudo que ele procura, serve também para pesquisa: tudo é anotado e passado a quem interessa. Além das pesquisas do Ibope, o CAT é que dá à emissora uma valiosa noção de como este ou aquele programa está sendo aceito. A opinião do público é capaz de modificar o andamento da história de uma novela, e foi o que aconteceu na novela Viver a Vida (Rede Globo, 2010), alguns telespectadores ligaram para o CAT e pediram um “sacode” em Isabel (Adriana Birolli), e o pedido foi atendido na cena em que sua mãe Tereza (Lilia Cabral) lhe dá uma surra. Para muitos, essa foi exagerada. Segundo dados, o sexo e a violência retratados em novelas aumentam o índice de audiência. A personagem não era das mais simpáticas, mas a surra chocou, foi uma violência desnecessária. Não deve ser aceitável que as mulheres sejam espancadas nas novelas. Isso incentiva a violência contra a mulher! Não interessa se quem bate é mãe, amiga ou irmã: violência não tem sexo. A atitude mais correta seria Tereza se reunir com o ex-marido e a filha, expor a situação e pedir que ela vá morar sozinha, já que a convivência se tornou insuportável, e não o apelo à violência.

Na novela Insensato Coração (Rede Globo, 2011) há uma abordagem e por conseqüência uma discussão sobre a violência contra as mulheres com Natalie Lamour (Deborah Secco) apanhando do personagem Cortez (Herson Capri), o banqueiro milionário, ela é colocada como objeto sexual e ele como seu proprietário. Ele achou que a loira entregou fotos comprometedoras do casal para sua mulher.

Na novela Morde e Assopra (Rede Globo, 2011) também foi ao ar cenas com violência a mulher, desta vez foi com a personagem Lavinia (Nívea Stelma), que levou uma bofetada do banqueiro Oséas (Luis Melo), por que saiu de casa sem sua permissão, a mesma não o abandona porque ele a ameaça de morte caso isso aconteça.

Rita de Cássia (Adriana Lessa) era uma mulher trabalhadora que sofria com a violência do marido, Cigano (Ronnie Marruda), quando este bebia, na novela Senhora do Destino (Rede Globo, 2004).
Isaura (Bianca Rinaldi) sofreu por ser mulher e por ser escrava. Esta novela é baseada em um romance do século XIX, em Escrava Isaura (Rede Record, 2005).

Gui (Juliana Paes) também sofreu nas mãos do marido, quando este bebia. Ela superou o trauma com o amor e companheirismo de Arthur Fortuna (Murilo Benício), na novela Pé na Jaca (Rede Globo, 2006).
Catarina (Lilia Cabral) era humilhada pelo marido, Leonardo (Jackson Antunes), e chegou a apanhar na frente dos filhos em A Favorita (Rede Globo, 2008).


Em O Rei do Gado (Rede Globo, 1996), Léa (Sílvia Pfeifer) foi totalmente apaixonada por Ralf (Oscar), mas quando os dois brigavam, ele descontava sua ira dando surras nela.

O ciúme de Clóvis (Dalton Vigh) foi a faísca que acendeu sua violência contra Sônia (Paola Oliveira) em O Profeta (Rede Globo, 2006).


Outra mulher que sofreu muito com a fúria e violência do marido foi Neusa (Ana Paula Tabalipa). Ela era espancada e sofria abusos sexuais do marido em Vidas Opostas (Rede Record, 2007).


Uma das cenas mais fortes da televisão foi a de Raquel (Helena Ranaldi) apanhando com uma raquete de Marcos (Dan Stulbach) em Mulheres Apaixonadas (Rede Globo, 2003). A personagem é agredida pelo ex, mas não tem coragem de denunciá-lo à polícia. Para fugir do marido, Raquel se muda de São Paulo para o Rio de Janeiro e consegue dar aulas de Educação Física na ERA, mas ele descobre seu paradeiro e volta a transformar sua vida em um inferno. Entre outros atos de violência, Marcos costuma bater na mulher com uma raquete de tênis. Na escola, Raquel faz amizade com o aluno Fred (Pedro Furtado), e os dois vivem uma relação de afeto e cumplicidade, apesar da contrariedade dos pais do rapaz. Marcos passa a perseguir o garoto, e Raquel o denuncia. No final, Marcos atrai Fred para uma emboscada, e os dois morrem. A professora termina a novela grávida do estudante, a quem faz uma homenagem na festa de fim de ano da escola.


A INFLUÊNCIA DAS TELENOVELAS SOBRE OS TELESPECTADORES

O hábito de assistir televisão tornou-se, praticamente, um ritual nos lares brasileiros. Cultuada, a novela dita moda, linguagem, hábitos e contribui para a alienação de seu público. A imagem de um “mundo perfeito” mostrada nas novelas dá uma visão distorcida da realidade. Os padrões difundidos são copiados e seguidos, porém, as pessoas não conseguem adaptá-los a uma vida real, o que gera ansiedade, angústia e frustração. É construída, então, uma imagem ilusória de um mundo perfeito, romântico, mas irreal. O costume de assistir novelas se estabeleceu a partir do momento em que o público foi se identificando com os personagens da trama, podendo essa influência ajudar, como novelas que trazem hábitos saudáveis e de boa conduta, ou influenciar de maneira ruim, como aquelas que espetacularizam a violência. Com a abordagem de temas mais polêmicos, as pessoas sentem mais liberdade de criticar e expor suas opiniões a respeito de determinados assuntos, que antes eram considerados tabus.

Espelhando-se nos protagonistas, os jovens os idolatram. Os galãs de novela são para as meninas os estereótipos de homem perfeito e para os rapazes os modelos a ser seguido. O mesmo acontece com as meninas, observam as atrizes e buscam seguir seu estereótipo, o que significa um risco para sociedade, principalmente quando se trata de adolescente. A televisão tem significativa importância no comportamento de seus telespectadores. O problema não é assistir à telenovela, mas é necessário o desenvolvimento de um senso crítico que nos permita escapar do mundo fantasioso criado pela teledramaturgia. O povo precisa de valores reais para viver uma vida real.

As tramas possuem um poder de entretenimento absolutamente incontestável. Sobre a influência das telenovelas, os telespectadores mudam de comportamento, modificando ou criando costumes. Além da história envolvida nas novelas, as roupas, os acessórios e os tipos de cabelos utilizados pelos personagens fazem um grande sucesso e são capazes de ditar moda. Geralmente, tem algo que chama atenção para as mulheres ter ou fazer igual. As novelas que mais costumam fazer sucesso, em termos de lançar moda, são aquelas como O Clone (Rede Globo, 2001), que trouxe a moda de acessórios de origem árabe, Caminho das Índias (Rede Globo, 2009), que mostra a cultura do povo indiano, com seus casamentos arranjados e seus belos figurinos, túnicas, lenços, batas com estampas diferentes, acessórios como brinco, pulseiras e colares também estão fazendo moda. Essa moda caiu no gosto popular e as mulheres adaptaram esse estilo indiano.

Quando uma expressão curiosa surge num dado programa de televisão e passa a fazer parte da vida do telespectador, ela é chamada de bordão e é inserida na maneira de agir das pessoas. O prazer específico de usar um bordão do momento faz com que as pessoas se sintam mais familiarizadas ou identificadas com o personagem que o popularizou. Foi o que aconteceu na novela Paraíso Tropical (Rede Globa, 2007) com a prostituta Bebel, personagem interpretado por Camila Pitanga. Com seu jeito irreverente e único, sua "catiguria" vai ficar marcada na memória do público que acompanhava a novela. Em Roque Santeiro (Rede Globo, 1986), nervoso, o marcante Sinhozinho Malta (Lima Duarte) sacudia as pulseiras e dizia "Tô certo ou tô errado?". "Cada mergulho é um flash!", dizia a personagem Odete (Mara Manzan), em O Clone (Rede Globo, 2001). Também em O Clone, Solange Couto deu vida à famosa Dona Jura, e junto com ela trouxe para a telinha um dos bordões mais famosos dos folhetins. "Não é brinquedo não!", repetia constantemente a dona do bar mais famoso de São Cristóvão. Na novela Chocolate com Pimenta (Rede Globo, 2004), Márcia, vivida pela atriz Drica Moraes, criou o bordão "Sou chique, benhê!". Divertida e espevitada, a personagem Elzinha (Leandra Leal), da novela Ciranda de Pedra (Rede Globo, 2008), caiu no gosto popular. Ela era louca para arranjar um marido rico e se achar muito chique. Afinal, Elzinha é "biscoito fino". Em Senhora do Destino (Rede Globo, 2005), Giovanni Improtta (José Wilker) teve grande repercussão com dois famosos bordões “O tempo ruge, e a Sapucaí é grande” e “felomenal”. Entre tantos outros.


No Brasil, a moda das ruas é altamente influenciada pelas novelas, como será citado mais adiante, no tópico “A NOVELA COMO DISSEMINADORA E CRIADORA DE MODA”. O que aparece na telinha vira moda quase que instantaneamente, não importa o que as tendências ditem. Este é um fenômeno cultural tão presente no país que até já despertou o interesse e foi tema de pesquisas internacionais. Entre tantos podemos destacar: Giuliana (Ana Paula Arósio) com seus xales e lenços de crochê exibidos na novela Terra Nostra (Rede Globo, 1999); Bebel (Camila Pitanga) com brincos, um maior que o outro, exibidos em Paraíso Tropical (Rede Globo, 2007); Silvia (Alinne Moraes) com corte de cabelo com franja e tom castanho avermelhado na novela Duas Caras (Rede Globo, 2007).

Alguns telespectadores não separam o real da ficção, confundindo muitas vezes o ator com personagem que ele interpreta, isso fica evidente com o episódio que aconteceu com o ator Jackson Antunes. No sítio onde mora, próximo a Teresópolis, cidade da Região Serrana Fluminense, Jackson Antunes tem a tranqüilidade que gosta para levar a vida. É um homem extremamente pacífico no lidar com a família, no jeito de ser e até no de falar. Mas o senhor que o empurrou e o machucou há alguns dias em plena rua só tinha em mente o violento Leonardo, personagem que o ator interpretava na época em A Favorita (Rede Globo, 2008). Na novela, Jackson bate em Lilia Cabral, que dá vida à submissa Catarina. Mas foi na realidade que o ator sofreu as conseqüências disso. "Tive uma lesão na perna direita, gravei algumas cenas apoiado na cadeira de rodas e sentindo muita dor", resume. O desagradável episódio passou, mas o personagem continua emocionando Jackson. "Acho oportuno reerguer a discussão sobre a violência doméstica", valoriza. Ele conta que a carga de emoção nas cenas da novela é alta.

TELENOVELAS COMO VEÍCULOS INFORMATIVOS

As novelas têm grande importância no que se refere a dispor informação ao público sobre diferentes aspectos, funcionando dessa forma como verdadeiro veículo informativo. Permitindo que os telespectadores obtenham conhecimento sobre determinado assunto, ela também alerta a muitos problemas reais da nossa sociedade, fazendo com que as pessoas abram os olhos e dê soluções aos seus problemas.

Na novela Caminho das Índias (Rede Globo, 2009), foi mostrado o cotidiano de portadores de doenças mentais. Os personagens são, na maior parte das vezes, mostrados em uma clínica, com acompanhemento de profissionais, e irão mostrar suas habilidades individuais em bandas, trabalhos artísticos e computação. Também foram abordadas as classes sociais a partir deste tema. Na trama é mostrado que as classes mais baixas fazem mais inclusão dos portadores de doença mental na sociedade do que as altas, que tentam esconder familiares com o problema.

Quem não se lembra da personagem Camila (Carolina Dieckman), da novela Laços de Família (Rede Globo, 2000)? Foi o papel mais difícil da carreira da atriz, segundo a mesma, que teve que raspar o cabelo em cena para mostrar a realidade de uma pessoa com leucemia. Permitindo que o público conhecesse o desenvolvimento da doença e o tratamento existente para essa, mostra também que a doença torna-se fatal sem o tratamento adequado.


Outra personagem que nos alertou de um problema real, o qual não era muito discutido foi o papel de Pérola Faria em Páginas da Vida (Rede Globo, 2006). A jovem atriz vivia Giselle, uma garota pressionada pela mãe a ser bailarina e também proibida de engordar e com tanta pressão a menina desenvolveu um sério quadro de bulimia. As cenas levaram os pais brasileiros a refletirem e observarem o comportamento de seus filhos, acabando assim a diagnosticar vários casos da doença em sua família.

Outra personagem que abordou um assunto bastante frequente e sério entre a população brasileira, o uso de drogas, foi a atriz Débora Falabella na novela O Clone (Rede Globo, 2001). Débora deu vida a Mel, uma jovem dependente química. A novela mostrou o drama de uma pessoa que opta por esse caminho, perdendo seus amigos, familiares e a dignidade, pois Mel acabou até sendo presa por porte de drogas e colocando sua família em risco por conta do vício. Após uma forte crise de abstinência, na qual quebrou o seu quarto inteiro, Mel foi levada a uma clinica de reabilitação.

Outra personagem que fez o Brasil inteiro ter raiva foi Nazaré (Renata Sorrah), uma das maiores vilãs da TV brasileira na novela Senhora do Destino (Rede Globo, 2004). Ela cometeu o crime pelo simples fato de querer que seu amante a assumisse, já que era uma mulher da vida. Sequestrou Lindalva (Carolina Dieckman) para poder inventar uma falsa gravidez e assim conseguir ficar com o homem.

Marcos Frota também viveu um problema real na novela América (Rede Globo, 2005), defendendo o direito dos cegos com o personagem Jatobá. Na mesma trama foi mostrado o problema de Haydée (Christiane Torloni), que era uma mulher elegante, influente, mas também cleptomaníaca. Ainda na novela América o público pôde conhecer os entraves que existe em emigrar para outros países em busca do sonho de uma vida melhor financeiramente, foi mostrada a realidade de pessoas que optaram por esse sonho e as dificuldades enfrentados por estes.

A personagem Luciana (Alinne Moraes), em Viver a Vida (Rede Globo, 2009), interpreta uma modelo que se torna tetraplégica e busca adaptar-se a sua nova realidade. Mostra ao público que é sim possível ter uma vida normal ainda que esteja em cima de uma cadeira de rodas. A personagem trabalha, casa e tem filhos. São mostrados os tratamentos possíveis para uma pessoa nesse estado e o desenvolvimento que ocorre. Enfatiza também as dificuldades enfrentadas por deficientes físicos na sociedade.


O câncer de mama foi abordado na novela História de Amor (Rede Globo, 1995), que considerou importante tratar da questão no horário das 18h, dominado pelo público feminino. Através da personagem Marta (Bia Nunes), que luta contra a doença, a novela reforçou as campanhas de prevenção e conscientização. Enquanto a novela esteve no ar, registrou-se o aumento no número de exames preventivos. A mastectomia (cirurgia de retirada da mama) e o apoio familiar às vítimas do câncer foram alguns dos assuntos tratados pelo autor.

Corpo Santo (Rede Manchete, 1987) foi a primeira novela a retratar a AIDS. Enfim, a televisão brasileira vai tocar num assunto que está mexendo com a cabeça de todo mundo. A novela Corpo Santo mostra a primeira personagem aidética do vídeo brasileiro. A prostituta Marina (Eliene Narduchi), vai ao médico, desconfiada de um gânglio que apareceu no seu pescoço, e horas depois todos os seus amigos já sabem que Marina pegou a doença. O preconceito é tão grande que, um mês antes de o capítulo ir ao ar, a divulgação da notícia na Revista Amiga transformou a vida de Eliene Narduchi num inferno. Os vizinhos deixaram de falar com ela, passaram a mudar de calçada quando a encontram na rua e mesmo alguns atores criticaram sua decisão de aceitar o papel. A atriz ficou perplexa com essas reações. "Acho que já estava na hora de falar da AIDS e quando o Louzeiro (um dos autores da novela) me chamou, aceitei na hora." A partir desta, várias outras novelas abordaram o assunto, falando de prevenção e tratamentos. Novelas direcionadas ao público jovem, como Malhação, já abordou o assunto, no ano de 2000 com a personagem Érica (Sâmara Felippo), que adquiriu o vírus após uma relação sexual sem preservativo.

As novelas têm incentivado o uso da camisinha em seus capítulos. A novela Insensato Coração (Rede Globo, 2011) abordou o assunto com o casal Alice (Paloma Bernardi) e Vinícius (Thiago Martins). Alice é uma menina doce, mas nada ingênua. Quando ela começa a namorar Vinícius, ele propõe que eles transem sem camisinha. Ela nega.

OS ASPECTOS NEGATIVOS DAS NOVELAS

As novelas nem sempre exercem um papel educativo, como vimos anteriormente no tópico TELENOVELAS COMO VEÍCULOS INFORMATIVOS. Muitas vezes os autores permitem que personagens que agiram mal durante a novela, descumpridores da lei, se dêem bem no fim, passando a idéia de que nada daquilo foi errado e deixando em evidência a justiça mal feita do nosso país. Isso certamente influencia algumas pessoas a agirem mal também.
Como exemplo, cito a cena de Vale Tudo (Rede Globo, 1988) que ficou na história das novelas, em que Marco Aurélio (Reginaldo Faria), vice-presidente da TCA, uma empresa de aviação, que comete diversas irregularidades como desvio de dinheiro e corrupção, foge do país num helicóptero dando “banana” para o Brasil, ao som da música “Brasil”, composta por George Israel e interpretada por Cazuza.


E por que não falar sobre Cordel Encantado (Rede Globo, 2011), novela que vem batendo recordes de ibope no seu horário (18h). A novela passa a história do cangaço semelhante à lenda de Robin Hood, na qual os cangaceiros são verdadeiros justiceiros que lutam contra os poderosos coronéis, exploradores dos pobres. Mas o que se tem registrado na história, o que se ouve dizer daqueles que viveram a época do cangaço, é que os cangaceiros até começaram o seu movimento com este ideal, mas que logo abandonaram seus valores para se tornarem assaltantes, estupradores e incendiários, abusando da violência e deixando rastros de sangue por onde passaram.
Ainda em Cordel Encantado, que se passa no fim do século 19 e início do século 20, período em que cerca de 13% da população era negra e 42%, mulata (Dados retirados da pesquisa realizada por Alberto Mussa, citada por R. V. Mattos e Silva no texto “A generalizada difusão da língua portuguesa no território brasileiro”.), só encontramos 4 artistas mulatos, que interpretam Maria Cesária (Lucy Ramos), Damião (Tony Tornado), Juca (Max Lima) e Tibungo (Land Vieira). Para onde foram todos os negros daquela época? Nenhum deles vivia no sertão nordestino? Pois, de acordo com o IBGE, o maior número de negros está na região nordeste do país.

Já em Belíssima (Rede Globo, 2005), Mateus (Cauã Reymond) rouba da própria mãe, se envolve com mulheres mais velhas interessado no dinheiro e, no fim das contas, se dá muito bem.
Em Passione (Rede Globo, 2010), Clara (Mariana Ximenes) apronta de tudo que se pode imaginar: Se passa por técnica em enfermagem e envenena o seu patrão, conquista o italiano Totó (Tony Ramos) e tenta matá-lo duas vezes para ficar com sua herança, é amante de Saulo e o mata a facadas, rouba jóias de Bete Gouveia (Fernanda Montenegro) e incrimina a empregada da casa Olga (Débora Duboc), coloca drogas ilícitas na bolsa de Diana (Carolina Dieckmann) para tirá-la do seu caminho e muitas outras coisas nada legais. Mas no fim da novela, Fred (Reynaldo Gianechini) vai preso em seu lugar e ela aparece em sua última cena com um sorriso no rosto, se passando novamente por técnica em enfermagem em outro país, dando a idéia de que começaria seus golpes novamente.
Em Insensato Coração (Rede Globo, 2011), estamos acompanhando a homossexualidade (Aprofudaremos o assunto no próximo tópico - HOMOSSEXUALIDADE). Apesar de acreditar que esta conscientização deve ser feita, que qualquer tipo de preconceito é uma verdadeira ignorância, a novela está fazendo de maneira forçada e insistente, provocando, inclusive, uma reação contrária na maioria das pessoas que entrevistei enquanto pesquisava. Na novela, os homossexuais são sempre muito simpáticos, bem sucedidos e bonitos, dando a entender que só existem gays assim. Como existem homens e mulheres ruins, negros e brancos ruins, altos e baixos ruins, gordos e magros ruins, existem também homossexuais que fazem coisas ruins. A novela poderia estar trabalhando o preconceito e a violência contra os gays de forma mais sutil e até inconsciente, já que as novelas têm esse poder. Inserir a idéia na mente das pessoas aos poucos dá um resultado melhor que exigir a mudança imediata de uma sociedade preconceituosa.

A sociedade está passando por um período complicado em relação a aceitação da homossexualidade, que está cada vez mais evidente e comum. O número de casos de agressão aos gays, praticado pelos “Pit Boys” ou “Skin Heads”, vem crescendo a cada dia. Mas existem maneiras melhores de se abordar o assunto, sem provocar esta reação contrária. Das 25 pessoas que entrevistei, 17 acreditam que a abordagem está acontecendo de forma exagerada.

Com este poder de informação, com o alcance que as novelas têm, os autores precisam ter cuidado ao desenvolver a sua história. Os vilões devem ter finais ruins.

Outra questão que gostaria de abordar neste tópico é a censura. A novela das 9, por exemplo, é censurada em 12 anos. Essa censura, porém, não funciona, já que os pais não assumem o seu papel de proibir que as crianças assistam programas impróprios para as suas idades.

Se o adulto de personalidade formada, que até passa ou já passou por situações semelhantes às que assiste nas novelas, se deixa influenciar pelos personagens e até tem alguns problemas para separar a realidade da ficção, imagina o que se passa na cabeça de uma criança ao se deparar com os vilões aprontando na TV? É extremamente necessário que os pais estejam atentos ao que seus filhos assistem.

HOMOSSEXUALIDADE

A homossexualidade é um assunto tratado com cada vez mais força nas telenovelas e minisséries. Mas esse assunto está nas telas há mais tempo do que se imagina.

O primeiro personagem homossexual retratado numa novela foi o Conrad Mahler (Ziembinsk), que, mesmo casado, mantinha uma relação com o garoto de programa Cauê (Buza Ferraz), na trama O Rebu (Rede Globo, 1974). Cauê acaba se apaixonando pela esposa de Conrad, que a mata por ciúme. O segundo personagem homossexual foi Henri (José Luiz Rodi), o cabeleireiro da trama O Astro (Rede Globo, 1977). Ele e Felipe (Edwin Luisi) matam o personagem Salomão Hayalla (Dionísio Azevedo). Como se pode perceber, os dois primeiros personagens gays foram relacionados à violência.

As próximas novelas retrataram os gays sempre como afeminados e as lésbicas, masculinizadas, estereotipando os indivíduos homossexuais. É o caso das novelas Dancin’ Days (Rede Globo, 1978), Os Gigantes (Rede Globo, 1979) e Brilhante (Rede Globo, 1979).
A novela Um Sonho a Mais (Rede Globo, 1985) exibiu o primeiro beijo entre dois homens, o travestido Anabela Freire (Ney Latorraca) e Pedro Ernesto (Carlos Kroeber).

Na década de 90, a novela A Próxima Vítima (Rede Globo, 1995) trouxe os personagens gays Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes). Este casal enfrentava ainda um outro tipo de preconceito – Sandrinho era branco e Jefferson, negro. Uma das cenas mais esperadas de toda a novela foi a que Sandrinho de revela homossexual para a sua mãe, Ana (Suzana Vieira).
Em Torre de Babel (Rede Globo, 1998), o autor Sílvio de Abreu apresentou um romance entre duas mulheres logo nos primeiros capítulos, longe de estereótipos, Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Sílvia Pfeifer). Rafaela e Leila morreram numa explosão em um shopping. Isto provocou, no mundo real, na época, um grande movimento gay contra a Igreja Católica, acusando-a de forçar a sociedade para que as lésbicas tivessem um fim trágico.

A trama Suave Veneno (Rede Globo, 1999) também deu início a um grande movimento gay, mas, desta vez, contra o personagem homossexual que nela havia, Edilberto (Luiz Carlos Tourinho). O Movimento Gay da Bahia afirmava que o personagem era muito afeminado, tornando cada vez mais forte o estereótipo atribuído aos gays.

A novela Mulheres Apaixonadas (Rede Globo, 2003) tinha o casal gay Rafaela (Paula Picarelli) e Clara (Alinne Moraes). Este foi o casal gay mais bem aceito pelo público, que torcia pelas duas meninas. Elas não se vestiam ou agiam como homens e foi isso, provavelmente, que conquistou os telespectadores.

Atualmente no ar, a novela Amor e Revolução (Rede SBT, 2011) exibiu o primeiro beijo – leia-se beijo e não “selinho” – entre duas mulheres. Ocorreu entre as personagens Marina (Giselle Tigre) e Marcela (Luciana Vendramini).


Anos antes, telenovela América (Rede Globo, 2005) gerou uma grande polêmica ao ter uma cena de beijo entre dois gays, Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), censurada.
Nos últimos anos, tivemos mais gays afeminados em Caras & Bocas (Rede Globo, 2009) - Cássio (Marco Pigossi), que lançou a expressão “Estou rosa chiclete!” – e em Morde & Assopra (Rede Globo, 2011) – Áureo (André Gonçalves).

Já no remake da novela Ti Ti Ti (Rede Globo, 2010), tivemos diversos homossexuais retratados de muitas maneiras. Julinho (André Arteche), cabeleireiro, namorava Osmar (Gustava Leão), fotógrafo, que morreu no início da trama. Do meio para o fim da novela, Thales (Armando Babaioff), surfista bonito, rico e sem qualquer “jeito de gay”, se apaixona por Julinho. Adriano (Rafael Zulu) era super afeminado e trabalhava no mesmo lugar que Paula (Viviane Neto), namorada de Teca (Ana Paula Pedro). As duas meninas eram bem femininas e tinham uma relação estável, mas que não era aceita pela mãe de Teca, Penha (Yaçanã Martins).

Acredito que a novela Ti Ti Ti foi a primeira que retratou a homossexualidade sem impor estereótipos ou a aceitação à sociedade. Nela, o gay podia ser afeminado ou não, cabeleireiro ou não, bem sucedido ou não. O que não acontece na telenovela Insensato Coração (Rede Globo, 2011).
Nesta última, o homossexualismo vem sendo tratado de forma muito forçada, como já foi citado no tópico OS ASPECTOS NEGATIVOS DAS NOVELAS. Os personagens gays são sempre muito bem sucedidos, de boa aparência e honestos – Nelson (Edson Fieschi) é o melhor advogado do Rio de Janeiro, Roni (Leonardo Miggiorin) é um simpaticíssimo empresário, Eduardo (Rodrigo Andrade) é um rapaz super honesto que está, aos poucos, descobrindo sua homossexualidade e Hugo (Marcos Damigo) é professor de Direito na universidade.

É claro que a situação da violência que atinge os homessexuais nos dias de hoje exige uma conscientização da sociedade e, certamente, como podemos ver ao longo do trabalho, não há meio que atinja maior número de pessoas do que as novelas. Porém, essa educação tem que acontecer de forma mais sutil, mostrando sempre os dois lados.

Aliás, em toda situação, seja social, racial, de gênero, preferência sexual etc, existem os dois lados. Assim como existem brancos honestos, existem brancos desonestos. Assim como existem mulheres frágeis, existem mulheres muito fortes. Assim como existem negros pobres que sofrem do racismo, existem negros muito bem sucedidos, que por sinal existe na trama em questão como o personagem André (Lázaro Ramos).
As novelas estereotipavam os homossexuais, e isso não está certo. Mas também não está certo, de uma hora para a outra, os gays serem as melhores pessoas que existem no mundo. É preciso dosar o bom e o ruim, a caricatura e o real, para dar ao público uma visão mais justa sobre a homossexualidade.